duas e quarenta e oito

Não sei se estás acordado. Não sei se estás a dormir. Pelas minhas contas e pelo que te conheço, ainda deves estar sem ter adormecido. Está frio aqui no quarto. Tenho a janela aberta para entrar o frio e o som da rua. E sabes que não gosto de nenhum dos dois. Mas o frio por cima das mantas quentes parece que aquece mais a alma e o ruido dos carros na auto-estrada fazem-me lembrar que isto é real, mesmo que pareça um filme do qual a maioria das vezes não falo parte.
Sinto que não me conheço. Acho que a maior parte do tempo não me conheço. Sou. Falo. Converso e rio. Mas não me conheço. Porque vêm em mim uma pessoa que não me veJo ser. E que me cansa em alguns momentos. Amo-te. Sei que sim. Mas nem isso tenho a certeza de saber fazer. Amar. Sempre pensei e sonhei o amar. O amor. Ser amada. E hoje sou amada. Mas não sei se sei amar.
Sempre vivi de planos e os meus deixaram de existir. Não sei porque. Talvez merecesse assim pelas minhas continuadas escolhas impensadas. Escolhas sonhadas e não pensadas. Já não posso ter mais planos. Tudo isso acabou. Haverá novos? Possivelmente. Mas tenho demasiado medo para esperar e ver. Mora em mim uma vontade de terminar tudo. A expectativa. A felicidade. A melancolia de poder perder de novo.
E os culpados nunca são os que sofrem. Os que mais amam, são os penalizados na história que nem sequer sou eu que escrevo.
Há dias em que não sei o que te dizer. Há noites em que só quero despedir-me. 
Sou feliz como nunca fui. Pensei que os contos existissem para as meninas bonitas, de laço a segurar os cabelos, em idade de aprender os números e as letras. Mas eu já sei os números e as letras. Até aprendi antes do tempo. E estou num conto de fadas.
E não sei mais ser princesa deste nosso castelo.
Não sei mais lidar com a ideia deu os corredores ficarem vazios e as escadarias fazerem eco. Eco de um nós.
Amo-te.
Sinto-me estragada. Demasiado para ter o privilégio de dizer que te amo.

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