desejado




porque há aquelas partes do tempo em que vives, que tens de passar. e não há poder para impedir de entrar, agarrar, espalhar e contaminar. aquelas que te fazem conhecer os teus limites, os limites dos outros. e há dias em que és de elástico e chegas onde nunca pensaste chegar, e há dias em que te transformas em pedra dura, onde nem a acidez da lágrima que força, é capaz de corroer a culpabilidade do correr dos dias. e pareces cristalizar. em ti, nos minutos e no espaço desse mundo que não entendes mas que tenta entender-te a ti.

alternas facilmente entre o preconceito de ti e a plenitude do que imaginas um dia poder vir a existir. acabas por deixar a vontade por detrás de um qualquer beco e deixas-te consumir pela possibilidade de, afinal, algo surgir pintado do mundo inesperado. desejado.


porque tudo o que vai, acaba por voltar (mesmo que por instantes, felizmente, breves)

2014.

Vou pegar nos pedaços perdidos pelo caminho e vou dizer-te, baixinho, ao ouvido, que tudo o que vale a pena, é resultado da construção e desconstrução dos dias. E eu vou acreditar porque tu acreditas, e tu vais acreditar porque sabes que os meus olhos nunca te mentiram. E talvez um dia cheguemos ao nosso destino [embora a meta nunca tenha estado desenhada.]

duas e quarenta e oito

Não sei se estás acordado. Não sei se estás a dormir. Pelas minhas contas e pelo que te conheço, ainda deves estar sem ter adormecido. Está frio aqui no quarto. Tenho a janela aberta para entrar o frio e o som da rua. E sabes que não gosto de nenhum dos dois. Mas o frio por cima das mantas quentes parece que aquece mais a alma e o ruido dos carros na auto-estrada fazem-me lembrar que isto é real, mesmo que pareça um filme do qual a maioria das vezes não falo parte.
Sinto que não me conheço. Acho que a maior parte do tempo não me conheço. Sou. Falo. Converso e rio. Mas não me conheço. Porque vêm em mim uma pessoa que não me veJo ser. E que me cansa em alguns momentos. Amo-te. Sei que sim. Mas nem isso tenho a certeza de saber fazer. Amar. Sempre pensei e sonhei o amar. O amor. Ser amada. E hoje sou amada. Mas não sei se sei amar.
Sempre vivi de planos e os meus deixaram de existir. Não sei porque. Talvez merecesse assim pelas minhas continuadas escolhas impensadas. Escolhas sonhadas e não pensadas. Já não posso ter mais planos. Tudo isso acabou. Haverá novos? Possivelmente. Mas tenho demasiado medo para esperar e ver. Mora em mim uma vontade de terminar tudo. A expectativa. A felicidade. A melancolia de poder perder de novo.
E os culpados nunca são os que sofrem. Os que mais amam, são os penalizados na história que nem sequer sou eu que escrevo.
Há dias em que não sei o que te dizer. Há noites em que só quero despedir-me. 
Sou feliz como nunca fui. Pensei que os contos existissem para as meninas bonitas, de laço a segurar os cabelos, em idade de aprender os números e as letras. Mas eu já sei os números e as letras. Até aprendi antes do tempo. E estou num conto de fadas.
E não sei mais ser princesa deste nosso castelo.
Não sei mais lidar com a ideia deu os corredores ficarem vazios e as escadarias fazerem eco. Eco de um nós.
Amo-te.
Sinto-me estragada. Demasiado para ter o privilégio de dizer que te amo.

chá de maçã e canela

Dás-me a tua almofada para dormir, porque sabes que gosto de almofadas altas. Não foram assim tantas noites (ou pelo menos não tantas quanto gostaríamos os dois), mas sabes desde a primeira. A t-shirt está ao fundo da cama, dobrada, para mim, como se me esperasse contigo. Alternas entre o ar atrevido e o olhar envergonhado e eu perco-me entre os dois. Gosto dos dois. Procuro os dois. E depois encontro-te a ti. As tuas mãos que me tocam suavemente como se só existisse o agora, e o agora fosse um tempo para sempre. E contigo é. Cada agora é um para sempre. Porque nunca pensamos em futuro. A falta de vontade de denominar e assumir o que não precisa de existir, faz-nos pender nas linhas dos instantes e vivemos no segundo presente. Sem ontem. Sem amanhã. E sem me aperceber só te quero tocar, agarrar, puxar-te para mim, ter-te dentro de mim. No final, cedo aos instantes e adormeço com vontade de te abraçar. E o meu braço abraça-te. Mas a vontade é diferente do que se faz. E a vontade às vezes quer coisas diferentes do corpo.
Pouco durmo. Sempre foi assim. Sozinha também, mas acompanhada é pior. Acho que o meu coração nunca se habituou ao compasso duplo. E, por isso, em segredo, vejo-te dormir. Não era suposto entre nos, eu sei. Nem sempre sou boa a cumprir regras e, na verdade, nunca escrevemos as nossas. Dás-me vontade de te querer e medo de te querer. E este paradoxo resolve-se no dia seguinte quando acordas e sei que te tenho, mas não te tenho. E, pela primeira vez, não quero querer saber se terei. Quero os nossos instantes, secretos, em que somos amantes sem o ser. Vou para casa e a vida corre. Natural e desprendida, tal e qual como ela própria deve ser. Ninguém sabe a razão do meu sorriso. Nem tu. Não tens que saber.

e o tempo que passa mas não fica

serei eu a única a não ver aquilo que todos os outros me querem mostrar? 

e um beijo na despedida

Tenho tanta vontade de te ligar que tenho de torcer os dedos para não clicar no "chamar" .possivelmente sou eu que complico isto tudo .nunca fui muito simples e a vida cada vez mais me ensina que não entendo nada de mim ..
há momentos em que só me apetece gritar ,arrancar partes de dentro de mim e a seguir desaparecer no espaço profundo .num buraco negro (talvez pudesse haver algo de diferente do outro lado ..)
não sei lidar com a maioria das coisas .com as coisas de nós principalmente ..não gosto disto assim ,não gosto desta vida .não gosto de viver separada de ti ,e também não tenho a certeza de que saibamos viver juntos. queria a normalidade de uma vida extraordinária ..mas somos os dois demasiado estragados .temos fantasmas demais .
e normalmente não poderia enviar-te nenhuma mensagem, porque ias ficar nervoso ,porque não ias entender e os filmes faço-os eu sempre sozinha .mas não quero mais guardar pensamentos e sentimentos e enfiá-los à força em folhas de papel rasgadas que acabam por ir para o lixo juntamente com os talões da gasolina
será um crime assim tão grande sonhar? estarei a fazer assim tanto mal ao deixar que o teu telemóvel toque e acenda a luz na mesa de cabeceira que devíamos partilhar?
não aguento conversas banais à espera do comboio não quero falar do meu almoço quando o meu corpo anseia o teu toque , o teu cheiro .se calhar somos feitos para irmos vivendo no imaginário de cada um e há dias em que sinto que devia deixar-te abrir as asas e ir .já nem tenho a certeza do caminho ,e o destino que procurávamos perdeu-se entre mapas de desconfianças ,desilusões e receios .sabe tão bem a areia quente da praia quando me abraças e oiço o teu coração a bater .mas mesmo quando nos tocamos e amamos estamos em esferas diferentes e raras são as vezes em que vivemos na mesma dimensão .tiraram-me o sonho ,a vida que eu queria .para mim .para ti. Contigo .nao me digas que é como antigamente.
antigamente eu não conhecia o sabor ,agora arrancaram-me das mãos sem me pedir licença
se calhar era assim que devia ser .se calhar estamos à deriva a insistir numa viagem que não faz mais sentido. se calhar somos mesmo demasiado diferentes e estou a viver uma ilusão daquilo que idealizei e desejei .só não o consigo admitir .se calhar um dia ,mas por agora so queria ter-tê aqui

18h48

não me venhas dizer que é como antigamente. não venhas.
nem te aproximes sequer.
sabes que te amo demais para aceitar a inverdade das palavras sussurradas ao final de um dia apagado.

antigamente vivíamos na vontade, no querer o horizonte. na imaginação da realidade, numa procura incessante do que poderia e estaria para vir.
e lá estivemos. e chorámos. e gritámos .
e, apesar de tudo, vivemos.

agora arrancaram-me das mãos a vida que eu tinha.
puseram-me à beira do precipício e atiraram-me para o ar.
sinto-me a descer e não há ninguém para me agarrar.

nem sequer tu.

por isso não me venhas com essas palavras mansas. não quero mais saber de conversas banais na estação dos comboios à espera que seja hora de arrancar.
quero a minha vida de volta!

roubaram-ma.
ninguém tinha esse direito.

quartas-feiras

talvez um dia abra os olhos de vez. talvez um dia aceite aquilo que, inevitavelmente, escondo dentro dos meus refúgios e finjo acreditar não existir. somos dois andantes a caminhar separados na mesma estrada. continuamos a fazer-nos crer que vamos em direcção ao mesmo destino mas nem sequer as nossas rotas foram traçadas no mesmo papel.
dia após dia, vamos trocando de papeis. 
ora choro eu por ti, ora lembras-te tu de mim. nem sempre nos queremos perto, mas a longevidade da postura acaba sempre por falar mais alto e encontramo-nos nos cruzamentos de nós

não sabemos viver de mão dada o nosso projecto, mas também não nos sabemos largar.

 não sei se por medo, se por amor raro ou insegurança.
as verdades boiam sempre nas ondas do porto que nos separa. e vamos alternando querer ser barco, querer ser ancoradouro. eu à espera que regresses do alto mar e tu a procurar o farol que te indique que ainda não te afastaste demais. 
Por vezes não sei se deveria simplesmente desligar a luz e deixar-te ir. as minhas paredes iriam ruir por completo, mas aos poucos talvez cada um de nós pudesse voltar a erguer-se da tempestade. 
não sei se não preferias deixar de procurar a luz para poderes encontrar o caminho pelo teu mapa de estrelas. cada vez mais sinto que vens ter ao porto para encontrar a segurança que necessitas quando à deriva te sentes perdido.

os ciclos repetem-se, os momentos de ilhas sucedem-se e, enquanto cada um de nós espera pelo regresso, vão-se colando às estacas de madeira as (in)verdades que as corroem. o tempo gira sempre à volta do mesmo ponto e os ponteiros têm sempre razão pelo menos duas vezes ao dia. vamos vivendo presos nos segundos reais de nós, nos sorrisos e nas gargalhadas soltas, verdadeiras e parvas. porque não conseguimos admitir cá dentro que a dificuldade de ancorar é demasiada e as asas querem-se para se ser livre.

um dia deixo-te ser livre de mim. hoje ainda não sou capaz. 
desculpa.

queres fugir, queres esconder

e assim se perdem os sonhos que um dia me confessaste ter .


o chão que pisas sou eu


Tudo isto se foi precipitando em passos largos de gigantes, sonoros e ruidosos e tu não quiseste ouvir, não quiseste saber.

Pediste-me para ficar sozinho, não conseguimos aguentar nem uma semana. Ao que parece a dependência um do outro falava mais alto do que a necessidade da descoberta (seria mesmo essa a necessidade ou seria já um eco de antecipação?). Tive que sair depois. Não podia mais ouvir as mesmas palavras, ver as mesma acções e deixar-me levar acorrentada para debaixo do poço.
Já nem vivíamos na cave e o poço onde estávamos era cada vez mais fundo.
Mas as palavras e acções mantiveram-se. Ilusão. Desilusão. No meio de um parque de estacionamento, e de alguns cigarros demasiado apressados, prometeste-me que, se te desse espaço e tempo irias mostrar-me como era a mulher da tua Vida. Querias, comigo ser Feliz


Acreditei mais uma vez. Cedi mais uma vez. 
Não faltou muito para as palavras se perderem no vento e te esqueceres novamente das promessas perdidas no frio daquela noite.
A dor era tão grande cá dentro que venci o medo inerte de te perder e quis cortar em pedaços ínfimos e pequenos a caixa que nos protegia. Quis fazer desaparecer esta pseudo-relação que vivíamos, que não era mais do que a doente 'absorvência' um do outro.
Ficaste perdido, disseste-me acreditar não ser o fim. Falaste-me e sussurraste-me todos os dias, fazendo-me crer que a dor da partida era tão grande em ti como em mim. Mas bastou a visão de mim, para mudares de ideias. E, afinal, a vontade de partir era tua.

Queres mas não queres.

Desejas manter a hipótese na prateleira enquanto dizes, vezes sem conta, precisares de descobrir quem és. E eu que te largue, que te deixe. Mas não muito, porque, se assim for, sentes de novo a corda a esticar e ninguém, principalmente tu (!), gosta de sentir o abandono. Não sabes se queres ficar ou se queres ir. Não sabes. 
Nunca soubeste. Nem sei o que queres saber. 
Queres entender o novo "eu" de ti, para poderes viver com um hipotético novo "eu" de mim. E enquanto ambos aguardamos que chegue o comboio dessa nova vida, perdemos o barco daquela que já era a vida por nós vivida. 
Não são os afastamentos que curam os medos. São as palavras, as verdades e as tolerâncias. Mas o medo de perder às vezes é tão grande, que preferimos deitar fora para não sofrer depois a dor do desaparecimento. Se tudo for externo, dói menos cá dentro.

Decides por ti largar no universo frio e (in)finito aquilo que eu fui para ti. É demasiado dificil lidar com o bom que temos, quando o receio de o estragar é maior do que a vontade de lutar por o construir. É melhor lutar contra as ondas e saber que o mundo vai rachar, do que lidar com a calma e paz ensurdecedoras de silêncios.
Planeias um futuro que vive nas tuas mãos no presente. E não entendes que projectar para a frente, só te faz abrir os dedos e deixar pelo caminho a areia que te acompanha, no agora, no presente. As conchas partem-se à medida que as deixas cair no chão e ao andares com os olhos nos céus não vês que "o chão que pisas sou eu"