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porque tudo o que vai, acaba por voltar (mesmo que por instantes, felizmente, breves)

2014.

Vou pegar nos pedaços perdidos pelo caminho e vou dizer-te, baixinho, ao ouvido, que tudo o que vale a pena, é resultado da construção e desconstrução dos dias. E eu vou acreditar porque tu acreditas, e tu vais acreditar porque sabes que os meus olhos nunca te mentiram. E talvez um dia cheguemos ao nosso destino [embora a meta nunca tenha estado desenhada.]

e um beijo na despedida

Tenho tanta vontade de te ligar que tenho de torcer os dedos para não clicar no "chamar" .possivelmente sou eu que complico isto tudo .nunca fui muito simples e a vida cada vez mais me ensina que não entendo nada de mim ..
há momentos em que só me apetece gritar ,arrancar partes de dentro de mim e a seguir desaparecer no espaço profundo .num buraco negro (talvez pudesse haver algo de diferente do outro lado ..)
não sei lidar com a maioria das coisas .com as coisas de nós principalmente ..não gosto disto assim ,não gosto desta vida .não gosto de viver separada de ti ,e também não tenho a certeza de que saibamos viver juntos. queria a normalidade de uma vida extraordinária ..mas somos os dois demasiado estragados .temos fantasmas demais .
e normalmente não poderia enviar-te nenhuma mensagem, porque ias ficar nervoso ,porque não ias entender e os filmes faço-os eu sempre sozinha .mas não quero mais guardar pensamentos e sentimentos e enfiá-los à força em folhas de papel rasgadas que acabam por ir para o lixo juntamente com os talões da gasolina
será um crime assim tão grande sonhar? estarei a fazer assim tanto mal ao deixar que o teu telemóvel toque e acenda a luz na mesa de cabeceira que devíamos partilhar?
não aguento conversas banais à espera do comboio não quero falar do meu almoço quando o meu corpo anseia o teu toque , o teu cheiro .se calhar somos feitos para irmos vivendo no imaginário de cada um e há dias em que sinto que devia deixar-te abrir as asas e ir .já nem tenho a certeza do caminho ,e o destino que procurávamos perdeu-se entre mapas de desconfianças ,desilusões e receios .sabe tão bem a areia quente da praia quando me abraças e oiço o teu coração a bater .mas mesmo quando nos tocamos e amamos estamos em esferas diferentes e raras são as vezes em que vivemos na mesma dimensão .tiraram-me o sonho ,a vida que eu queria .para mim .para ti. Contigo .nao me digas que é como antigamente.
antigamente eu não conhecia o sabor ,agora arrancaram-me das mãos sem me pedir licença
se calhar era assim que devia ser .se calhar estamos à deriva a insistir numa viagem que não faz mais sentido. se calhar somos mesmo demasiado diferentes e estou a viver uma ilusão daquilo que idealizei e desejei .só não o consigo admitir .se calhar um dia ,mas por agora so queria ter-tê aqui

18h48

não me venhas dizer que é como antigamente. não venhas.
nem te aproximes sequer.
sabes que te amo demais para aceitar a inverdade das palavras sussurradas ao final de um dia apagado.

antigamente vivíamos na vontade, no querer o horizonte. na imaginação da realidade, numa procura incessante do que poderia e estaria para vir.
e lá estivemos. e chorámos. e gritámos .
e, apesar de tudo, vivemos.

agora arrancaram-me das mãos a vida que eu tinha.
puseram-me à beira do precipício e atiraram-me para o ar.
sinto-me a descer e não há ninguém para me agarrar.

nem sequer tu.

por isso não me venhas com essas palavras mansas. não quero mais saber de conversas banais na estação dos comboios à espera que seja hora de arrancar.
quero a minha vida de volta!

roubaram-ma.
ninguém tinha esse direito.

quartas-feiras

talvez um dia abra os olhos de vez. talvez um dia aceite aquilo que, inevitavelmente, escondo dentro dos meus refúgios e finjo acreditar não existir. somos dois andantes a caminhar separados na mesma estrada. continuamos a fazer-nos crer que vamos em direcção ao mesmo destino mas nem sequer as nossas rotas foram traçadas no mesmo papel.
dia após dia, vamos trocando de papeis. 
ora choro eu por ti, ora lembras-te tu de mim. nem sempre nos queremos perto, mas a longevidade da postura acaba sempre por falar mais alto e encontramo-nos nos cruzamentos de nós

não sabemos viver de mão dada o nosso projecto, mas também não nos sabemos largar.

 não sei se por medo, se por amor raro ou insegurança.
as verdades boiam sempre nas ondas do porto que nos separa. e vamos alternando querer ser barco, querer ser ancoradouro. eu à espera que regresses do alto mar e tu a procurar o farol que te indique que ainda não te afastaste demais. 
Por vezes não sei se deveria simplesmente desligar a luz e deixar-te ir. as minhas paredes iriam ruir por completo, mas aos poucos talvez cada um de nós pudesse voltar a erguer-se da tempestade. 
não sei se não preferias deixar de procurar a luz para poderes encontrar o caminho pelo teu mapa de estrelas. cada vez mais sinto que vens ter ao porto para encontrar a segurança que necessitas quando à deriva te sentes perdido.

os ciclos repetem-se, os momentos de ilhas sucedem-se e, enquanto cada um de nós espera pelo regresso, vão-se colando às estacas de madeira as (in)verdades que as corroem. o tempo gira sempre à volta do mesmo ponto e os ponteiros têm sempre razão pelo menos duas vezes ao dia. vamos vivendo presos nos segundos reais de nós, nos sorrisos e nas gargalhadas soltas, verdadeiras e parvas. porque não conseguimos admitir cá dentro que a dificuldade de ancorar é demasiada e as asas querem-se para se ser livre.

um dia deixo-te ser livre de mim. hoje ainda não sou capaz. 
desculpa.

queres fugir, queres esconder

e assim se perdem os sonhos que um dia me confessaste ter .


o chão que pisas sou eu


Tudo isto se foi precipitando em passos largos de gigantes, sonoros e ruidosos e tu não quiseste ouvir, não quiseste saber.

Pediste-me para ficar sozinho, não conseguimos aguentar nem uma semana. Ao que parece a dependência um do outro falava mais alto do que a necessidade da descoberta (seria mesmo essa a necessidade ou seria já um eco de antecipação?). Tive que sair depois. Não podia mais ouvir as mesmas palavras, ver as mesma acções e deixar-me levar acorrentada para debaixo do poço.
Já nem vivíamos na cave e o poço onde estávamos era cada vez mais fundo.
Mas as palavras e acções mantiveram-se. Ilusão. Desilusão. No meio de um parque de estacionamento, e de alguns cigarros demasiado apressados, prometeste-me que, se te desse espaço e tempo irias mostrar-me como era a mulher da tua Vida. Querias, comigo ser Feliz


Acreditei mais uma vez. Cedi mais uma vez. 
Não faltou muito para as palavras se perderem no vento e te esqueceres novamente das promessas perdidas no frio daquela noite.
A dor era tão grande cá dentro que venci o medo inerte de te perder e quis cortar em pedaços ínfimos e pequenos a caixa que nos protegia. Quis fazer desaparecer esta pseudo-relação que vivíamos, que não era mais do que a doente 'absorvência' um do outro.
Ficaste perdido, disseste-me acreditar não ser o fim. Falaste-me e sussurraste-me todos os dias, fazendo-me crer que a dor da partida era tão grande em ti como em mim. Mas bastou a visão de mim, para mudares de ideias. E, afinal, a vontade de partir era tua.

Queres mas não queres.

Desejas manter a hipótese na prateleira enquanto dizes, vezes sem conta, precisares de descobrir quem és. E eu que te largue, que te deixe. Mas não muito, porque, se assim for, sentes de novo a corda a esticar e ninguém, principalmente tu (!), gosta de sentir o abandono. Não sabes se queres ficar ou se queres ir. Não sabes. 
Nunca soubeste. Nem sei o que queres saber. 
Queres entender o novo "eu" de ti, para poderes viver com um hipotético novo "eu" de mim. E enquanto ambos aguardamos que chegue o comboio dessa nova vida, perdemos o barco daquela que já era a vida por nós vivida. 
Não são os afastamentos que curam os medos. São as palavras, as verdades e as tolerâncias. Mas o medo de perder às vezes é tão grande, que preferimos deitar fora para não sofrer depois a dor do desaparecimento. Se tudo for externo, dói menos cá dentro.

Decides por ti largar no universo frio e (in)finito aquilo que eu fui para ti. É demasiado dificil lidar com o bom que temos, quando o receio de o estragar é maior do que a vontade de lutar por o construir. É melhor lutar contra as ondas e saber que o mundo vai rachar, do que lidar com a calma e paz ensurdecedoras de silêncios.
Planeias um futuro que vive nas tuas mãos no presente. E não entendes que projectar para a frente, só te faz abrir os dedos e deixar pelo caminho a areia que te acompanha, no agora, no presente. As conchas partem-se à medida que as deixas cair no chão e ao andares com os olhos nos céus não vês que "o chão que pisas sou eu"

[ há algum tempo atrás que] já não sei quando mas estava aqui . e é sempre tão igual a todos os dias

sinto que tenho tudo isto cá dentro guardado. sinto-me a explodir de tudo aquilo que te quero dizer. de tudo aquilo que quero que oiças e compreendas. que não me interrompas. que não menosprezes e não rejeites.
mas não sei o que é tudo isto. está cá dentro e afoga-me, mas não sei o que é.
sinto-me cansada e sem vontade de acordar novamente todas as manhãs. cansada de me preocupar.
sei que tenho tudo aquilo que queria ter. o meu namorado, a minha casa, um trabalho. não gosto deste trabalho. não sei se alguma vez gostarei de algum trabalho. às vezes acho que só serei boa sempre a estudar. assim só me desiludo a mim própria.
estou sempre preocupada em fazer tudo bem, em manter tudo bem. cuidar de tudo. mal sei cuidar de mim própria.

sempre a preocupar-me se te vou deixar sozinho. o que vai acontecer ? tenho sempre o mesmo palpite e ele acontece sempre. vais beber. e o que vai acontecer com isso? vais ficar agressivo ? não vai acontecer nada ? vais habituar-te a beber pouco ? e o pouco vai ser todos os dias ?
nada te interessa. nada te parece interessar na vida. a não ser os filmes e os jogos. pouco interages e quando me mostras de ti é porque bebeste e eu tenho que te ouvir.
queria mostrar-te o meu mundo. mas nunca o vais conhecer.


cansada de ter que pensar no dinheiro, nas contas, nos teus problemas. gosto de fazer parte da tua vida e que faças parte da minha, mas quero ser a tua namorada, não a tua mãe a todos os momentos! quero poder sentir-me segura e sinto que sou eu que cuido de tudo. preciso também que sejas tu a cuidar de mim. preciso que cresças e penses nas coisas de crescido.



acho que não sabes viver sozinho. gostas de não viver sozinho mas, na verdade queres a tua vida, o teu espaço, a tua forma de viver e ver as coisas.

não me vejo a viver sem ti. nem sequer vejo razões para querer viver sem ti. mas, neste momento, também não as vejo para querer. amamo.nos. mas não estamos mais apaixonados. tive momentos vários em que acreditei que sim, mas agora já não sei sequer se terão sido reais.

arrependo-me de ter pensado que te perdia, que não me amarias mais se não cedesse à tua vontade de vir para esta casa. eu própria me convenci disso. gastei o que não queria ter gasto. comprei o que não queria ter comprado. não queria aquele tapete de madeira da casa de banho ! queria um sonho.
e agora já não consigo ter a certeza se ele se vai realizar.

sinto que sou para ti uma chata, rabujenta, sempre a refilar, sempre de trombras. sou a desmancha-prazeres desta casa, nunca satisfeita com nada. e, por um lado, dou-te razão. estou sempre preocupada. com mil coisas. Não consigo relaxar, não consigo divertir-me a 100%.

tenho medo que isso faça com que vás procurar novamente aquilo que não te dou. diversão, boa disposição, descontracção. alguém que te faça sentir bem. porque sinto que não o faço. por outro lado tenho vontade de pensar que sou capaz de aceitar essa condição de que ninguém muda totalmente e que serás sempre aquele que precisa da atenção das mulheres à tua volta. acho que, se assim for, nada poderei fazer para as coisas serem diferentes. e nunca saberei. e prefiro não saber.
gostava que tivesses atenção àquilo que sinto. que não me dissesses sempre que já viveste ou estás a viver pior. já fui criança e sonhei para mim. e sinto-me muito tola por isso. os sonhos só são reais nos contos de fadas.

gostava de construir uma vida e uma família contigo. mas sinto que não estás preparado. nem sei se um dia estarás. dar a tua vida para a partilhar com alguém requer sacrificio. pensar em muitas coisas. arrumar. limpar. organizar. orçamentar. preocupar-se. e, ao mesmo tempo, ter tempo e vontade de dar tempo de si ao outro. e não se esconder.

criar uma vida requer ainda mais sacrifício. o sacrifício de uma vida. para o resto da vida.
tenho medo de pensar que "hoje" ainda não estamos preparados, mas que "amanhã" estaremos, e que isso nunca aconteça, mas que me deixa convencer que sim. não sei se pela ilusão, se pelo cansaço. e arrepender-me.
quero continuar contigo. quero continuar contigo aqui. e que continues aqui. mas tudo isto cá dentro sufoca-me e nem sequer consigo saber o que tudo isto é.

o silêncio que te incomoda

às vezes, simplesmente, não me apetece ter que lidar contigo.

enquanto continuo a pensar no fim

temos o mar como fundo e a nossa esplanada preferida como palco de conversa. digo.te que me senti enganada, no início não era assim, foi muito mau e tem vindo a melhorar .. mas a bola pesada de tudo o que passei por ti e contigo,( mesmo que o presente seja diferente), está a ser cada vez mais difícil de carregar.
dizes-me que me entendes. que sabes o que és. que sabes o que me fizeste. dizes que achas que não tenha que ser o fim e que se já entrámos na recta (muito afunilada) da melhoria, não faz mais sentido deixar pesar o passado. 
dizes-me que me dás razão. que queres e serás diferente. que já o estás a ser. que são passos pequenos e demorados mas que juntos chegaremos ao destino certo. e, aliás, mais importante é o caminho não o destino e que, assim, não estamos a aproveitar caminho nenhum.
e eu estou a deixar-nos presa no passado, com medo do futuro. estou a perder o presente contigo. e dou-te razão.
porque o meu medo é deixar que o passado seja esquecido, aproveitar o presente como fazia em tempos  e depois o futuro ser o maior trambolhão da história dos amores perdidos.
quero acreditar com toda a tua mesma certeza de que somos os dois feitos de coisas difíceis e impossíveis e que já passámos tanto que não há nada que não consigamos passar mais. quero acreditar nesses teus olhos verdes que me dizem que há uma possibilidade em nós e que é nela que vamos querer continuar a viver.
quero correr na praia, na areia, no jardim com os braços abertos e o coração cheio no peito, sem medos, sem preocupações, sem receios de que, um dia, tudo isto esteja destinado a acabar.
Gostava especialmente de ser daquelas pessoas que não se preocupa. Que deixa tudo passar à sua volta e continua convictamente a acreditar que o ruído de fundo não é do mundo que está a ruir à sua volta. A cair aos pequenos bocados, ferindo por dentro.

Gostava especialmente de fazer parte daquelas pessoas que mantêm relacionamentos lindos, simples, que aceitam tudo o que há e não há para aceitar. Com um sorriso na cara e um "espero-te logo à noite no teu lugar vazio da cama".

Mas não sou mesmo. Não consigo aceitar. Sou assim mesmo, sou o que sou. Desta mesma forma. E não é um ultimato. É mais um esforço que faço por ti.

muitas vezes nem sei se nos amamos ou simplesmente amamos a ideia de nos amarmos um ao outro

tem dias em que se torna complicado. eu transformo-me na pior pessoa do mundo e só me apetece farejar tudo e mais alguma coisa à procura daquilo que sei, precisamente, que não quero encontrar. dia a dia surpreendes-me. quase nunca pela positiva.
ou então sou eu demasiado exigente e perfeccionista para não ver essa tuas lindas acções e gestos.
dizias no outro dia "ir trabalhar todos os dias para o último sitio da terra para onde eu queria ir deveria ser a maior prova de amor. faço-o por nós e pela nossa vida". e nesse mesmo dia dizes-me com todo o ar natural do mundo "sim, gosto muito da P. somos amigos e temos um química muito forte". por muito que eu não queira, a última frase anula catastroficamente a primeira. é qualquer coisa tipo holocausto cá dentro, mas sem os julgamentos de guerra. porque a única prisioneira aqui sou eu.
sim é verdade, reduziste os litros de etanol por semana, passaste a não partir coisas, tomas sempre certinho os comprimidos, já não atiras cenas pela janela e aprendeste a sentar à beira da cama a conversar como um menino crescido (embora a conversa não possa durar mais de cinco, dez minutos e desde que não caia demasiado para o teu lado).
e depois descubro sempre uma garrafa que afinal estava cheia era de água ("oh isso foi há tanto tempo, eu já não faria isso nunca mais ..." hum hum). e depois é a mensagem a cair no telemovel, a chamada rejeitada, e as horas que passas na casa de banho trancado a fazer sabe-se lá o quê !

contigo é sempre assim. bombas nucleares constantemente a cair no meu jardim.
gritas comigo que fazes imenso nesta casa, quando eu te peço por um pouco de ajuda "porra!". "Já fiz uma máquina de louça e limpei os peixes ! " respondes com ar de ofensa como se eu te tivesse dito que o teu nariz torto consegue ser pior que as orelhas de dumbo.
boa . e eu a seguir a ti tive de ir limpar a cozinha, bancada, chão, louça que não coube na máquina, paredes e fogão; ao mesmo que tempo que encho a wc de spray, arrumo o quarto, faço e estendo duas máquinas de roupa, lavo o frigorífico, tiro o spray da wc, lavo a banheira, sanita, bidé e ainda ponho o espelho a brilhar; e consigo pensar nas contas, no jantar, e na P., na A., na C. e nas gajas todas com quem tens uma "química especial de amigo".
quero lá saber se elas entendem as tuas piadas, sem têm 50 ou 100 quilos e se me dizes que é a mim que queres. quero lá sabes se são a tua companhia no café no trabalho que não gostas. também não gosto do meu, f'dasse. e não ando a gastar o meu charme pelos caminhos do mundo, para depois chegar a casa e jogar PS.
foste jantar a casa do B. no outro dia para te despedires da V. aquela que me disseste ter sido "o amor da tua vida" (sim, mais uma merda que engoli e enfiei no saco). eu não disse nada e vieste encantado com os putos e com o B. ter dito que qualidade de vida era ir para casa depois de um dia de trabalho e poder passar tempo com a mulher. por momentos até acreditei. (como quase sempre!)
mas a maior do tempo, tu escondeste nos jogos de carros a fugir da polícia que é quando dá mais pontos e eu venho para o escritório fingir que nada é. até gosto de estar sozinha,

e agora que depois de ir ao dôtor psiquiatra e andar a indutores do sono, ansiolíticos e anti-depressivos, nada melhora, só me parece pior.

porque tenho medo de melhorar. de abrir os olhos voltar a ganhar aquela energia que sempre tive dentro de mim e dizer-te que chega. não quero saber de comprar carros, casas T2, nem de putos a correr pelo corredor.
não quero saber de ti. 
e tenho medo disso.

foi sempre assim ..(eu o rato)

.. nunca foi fácil isto de nós os dois. primeiro era eu que pensava que não queria receber-te. o meu coração parecia estar demasiado magoado da passagem anterior. convenci-me a mim própria de que estava a fazer-me difícil para ti quando, na verdade, estava desejosa que alguém abrisse os braços para me receber. tu já tinhas percebido isso (sempre foste estupidamente inteligente para perceber as pessoas) e foste jogando o jogo. mais ou menos como o rato e gato. sempre soubeste bem como conduzir, como convencer e manipular. comigo, antes do tudo, sempre usaste as palavras certas no momento certo. e eu deixei-me ir.
começou por ser divertido. eu em Coimbra, tu em Lisboa, eu não levava as coisas assim tão a sério, enganando-me e pensado que tinha encontrado a coragem para, por uma vez, ser comandante da relação. confiava tanto por não ter medo de perder, nem coragem de enfrentar o futuro. e tu mostravas ciúmes irascíveis que eu acreditava serem de um amor verdadeiro que tinha ali nascido por mim.  gostava tanto disso.
era quase perfeito e eu ignorava os sinais, ignorava o que me desagradava, ignorava a pessoa que sabia que eras .. acho que, no fundo, não queria saber disso para nada. costumavas abrir a mão esquerda e esticar o dedo indicador direito. dizias que há sempre aquele que apanha e o que se deixa apanhar. fechavas com o força o dedo na mão e depois com ele sempre esticado dizias "eu sou este. o apanhado por ti". e sentia-me como uma mão poderosa. mas era um rato.
faltou o emprego, faltou o dinheiro e eu não me importei. nem pensei. eu sempre tive tudo e nunca neguei nada a ninguém. muito menos o meu coração.
e eram as noites e os dias que se misturavam. as horas que se trocavam. eu ia para aulas e tu dormias, eu estudava e tu bebias. e vinham as conversas acesas, as discussões. eu sentia-me sempre culpada no final de cada uma. era o rato que, manipulado, se aninhava no gato.
era o mesmo tecto para nós os dois. e mesma cama. os jantares, as receitas inventadas, os passeios pelas ruas de Coimbra todas as noites. uma rotina imposta pela falta de emprego, a falta de dinheiro e por nunca me faltar nada.
não consegui imaginar outra forma diferente senão voltar para Lisboa contigo e precipitarmo-nos para uma casa. os dois. eu queria-a pequenina, mobilada, uma coisa singela ao jeito dos contos de fadas.  gastar pouco. arriscar pouco dentro do risco maior que era fechar os olhos aquilo que sabia que iria acontecer. tu querias tudo novo, tudo bonito, a cheirar bem, no centro e muito caro. fizeste as birras de sempre para eu concordar. e eu, concordei. mesmo com aquele aperto no estômago, concordei. sabia que não era o certo, tu já andavas distante, pouco carinhoso, na cama não existias há meses e a bebida nunca te deixou ser meu.
entrámos na casa nova. emprego novo. para mim e para ti. 
noites a beber, discussões atrás de discussões. e a culpa que eu sempre senti de tudo. culpa de não entender, culpa de exigir de mais, de não te saber amar, de não saber viver. 
fui engolindo o arrastar de meses que ia ignorando, com gritos, insultos camuflados, as bebedeiras, horas sem saber de ti, as mentiras, os telefonemas sem resposta e as mensagens esquecidas. fui desaparecendo dentro de mim. 
murros na parede, o sofá partido. coisas atiradas pela janela, os ultimatos, as ameaças. e eu ali, entre lágrimas, arranhadelas a mim própria, o bater com a cabeça na chão e o medo de perder tudo.
sempre o rato com medo do que o gato possa fazer, mas com aquela vontade de lhe sentir os bigodes.
roupas. coisas para a casa. jantares. fora e dentro. receitas experimentadas, noitadas ... foi-se o dinheiro e com ele, já há muito, tinha desaparecido a minha inocência. 
mas noite após noite continuava a acreditar sempre que era desta, era desta vez que as coisas mudavam. tu ias querer ser diferente comigo e, principalmente, contigo. ias querer ser crescido, viver uma vida a sério e reconhecer a mulher que tinhas do teu lado
mudámos de casa, mudámos de sítio. as coisas mudaram um pouco. mas as mentiras vieram connosco.   e com elas a sensação continuamente pesada de que sempre me tomaste por demasiado tua, por demasiado cega. e era. Tua. e cega.
rata cega com a perfeita noção de que era propositado o torpor em que me metia. 
Continuava a apetecer-me desaparecer, não existir, deixar de sentir. E tu chamavas-me preguiçosa. E eu na preguiça tratava de tudo, das contas, da casa, do dinheiro que já pouco tínhamos, das limpezas, das arrumações, de ti. E nunca soubeste ver isso.
nunca houve um período fácil e simples. sem preocupações. só felicidade e amor. nunca houve. e sei bem que nunca haverá. porque o mundo não muda, e nós fazemos parte do mundo.
aquilo que és, está dentro de ti e provavelmente eu nunca saberei viver com isso. o que se passa é que, também não sei já como viver sem tudo isto e quando penso em deixar-te o peito vira-se ao contrário cá dentro e parece que o quero vomitar.
não sei, e acho que nunca saberei, entender qual a razão para estares tão presente às vezes e tão ausente na maioria das outras. mas a verdade é que nos poucos momentos em que te sinto comigo, sou a pessoa mais feliz de sempre. e tu fazes sacrifícios. eu sei. mas também sei que nunca serão suficientes.
Porque tu e eu nunca seremos suficientes um para o outro.

depois de tudo o que aqui se passou

será que se pode perder para sempre aquilo que, na verdade, nunca foi nosso ?

mas não consegui trancar a porta à saída.

foi quando bati a porta pela segunda vez durante a tarde, que deixei de ter certezas. Já tinha ido lá abaixo, estava calor e a senhora que limpa as escadas, como sempre antipática; levantei dinheiro, comprei-te os tubos e o tabaco. A casa já estava limpa, a roupa dobrada e a casa de banho a cheirar àquele óleo que uns primos meus nos ofereceram pelo natal.
há quatro dias atrás, o plano era fugir para descobrir a vontade de voltar. mas tiveste que precipitar tudo antes. tive de sair antes do dia por mim marcado, a meio da noite, tive de chorar e teve de doer. Demais. E tive de regressar no meio da chuva do dia seguinte antes de poder sair.
por isso, foi quando fechei a porta pela segunda vez, no dia por mim marcado, que deixei de ter certezas. aquelas certezas de que tudo estava tão incerto que necessitava, claramente, de arranjo. as incertezas passaram a ser certezas de que, afinal, tudo parecia estar certo.
Qual o sentido da mochila às costas, então? Não sei.
Deixei-te um bilhete no espelho do teu lado da cama a dizer que sentirei saudades e apanhei o comboio das dezoito e vinte e quatro.

Baby, I love your way !

Mesmo com aquele vento gelado na cara que enregelva as mão, estava difícil manter os olhos abertos. Não nos deitámos assim tão tarde, mas eu estava cansada com algumas coisas da vida e tu ansioso com outras.
Razões entre nós nunca faltaram para noites assim.
Deixei-me dormir, como todas as vezes, no teu peito. É sempre ali que mora o meu momento especial do dia. O meu lugar sagrado onde medito na vida, faço planos de futuro, planeio o dia seguinte, decido o jantar e a lista de compras e imagino a inifinitude do universo (e sei que também pensas no mesmo, com o braço à minha volta. No universo, digo).
Estavas agitado e eu sinto-o sempre. Acordada ou nos sonhos.
Por isso, de manhã, estava mesmo cheia de sono e, ainda por cima, a água quente continua a não funcionar o que me deixou muito mal-humorada.
Estava, então na passadeira, quando começou a passar no iPod aquela música do Bob que tantas ouvia quando estava em Coimbra [Carcavelos, Cascais, Lisboa ..] para me animar. Em loop. Para lembrar de uma história linda e de livro que ainda podíamos vir a viver. Connosco, contigo, sempre funcionou assim: "ainda vai chegar o momento .." .Um misto de espera e esperança.
De qualquer das maneiras, há dias vínhamos no táxi do Bairro Alto para casa e estava a dar a música na rádio. Agarraste a minha mão, apesar da tua bebedeira não te deixar saber porque o fazias, muito menos recordá-lo no dia seguinte. Mas eu SEI que foi um sinal. De que vamos viver a nossa história.
Então, hoje de manhã, quando o sentia o frio gelado, passou a música. E sorri, sozinha na passadeira, com todos aqueles encasacados caminho de um trabalho ou a fugir de uma vida. E enchi-me de vontade de voltar para trás. Acordar-te e dizer: "Olha a música! Aquela que não sabes mas que representa a história linda que, afinal, já estamos a viver!".
porque é que tornas tudo díficil ? eu so queria amar-te e dizer-te que te quero do meu lado. aquecer os meus pés nos teus e rir às gargalhadas com as nossas piadas parvas. mas tornas tudo isto tão demasiado dificil !

queria que fosse suficiente

tenho tido tudo aqui atravessado. não consigo chegar a ti. sempre gostei de palavras e elas sempre souberam moldar-se áquilo que era a minha realidade mas, todas as noites, quando decido que é o momento certo para te falar, sinto os teus pés quentes a aquecerem os meus e a coragem foge por debaixo da porta do quarto fechada. de manhã quando vou à procura dela na sala já não a encontro. e volta tudo ao mesmo.
sinto tudo isto cá dentro e não queria sentir. queria sentir, novamente, simplesmente a vontade de acordar todas as manhãs ao teu lado. sem pensar em mais nada. queria sentir-me novamente tonta. verdadeira. preferia não saber onde moram os medos e acima de tudo queria ser para ti aquilo que sei que pensas que és para mim.

e, no entanto, estou deitada do teu lado na cama



enquanto falávamos, enquanto eu falava e não ouvias, enquanto eu calava e tu despejavas, estive ali sempre. aqui do teu lado, a ver-te destruir construções (que, afinal, mostraram-se ser de areia). prometi-te que ia ficar, que te ia amar e acalmar e que a culpa era, como sempre, toda minha. deitou-se a lua, nasceu o sol e não fui capaz de fechar os olhos. porque entretanto estive a recolher as pedras que me atiraste, os paus com que me feriste e construí um castelo. com uma porta de ferro e um dragão à entrada. fechei-me lá dentro e deitei a chave para o rio, cheio da água que de mim escorreu. 
tranquei-me. 
por uns dias ali quis ficar no segurança gelada das paredes de pedra. por uns dias não quis sequer espreitar a luz, com medo de que o quente do sol me fizesse pensar que era o teu toque que me aquecia novamente. 
e agora perdi a vontade algures nos corredores, comida pelas aranhas ou levada pelos morcegos que, afinal, viviam dentro de mim.
preciso ganhar novamente a vontade de pegar na tua mão, olhar-te e deixar as borboletas entrar bem cá dentro. preciso de novas e muitas borboletas! mas dizes-me que não me entendes, por ti está tudo bem. apenas depende de Mim.
mas não vês que estou na outra margem, estou por trás do portão e o dragão que contratei para me proteger de ti, simplesmente não se vai embora sem as palavras mágicas? não vês que tens de pegar na armadura e no cavalo, lutar contra os meus fantasmas, passar o rio e subir à torre mais alta? não vês que o meu coração só desgela quando souber que é isto que queres, é isto que desejas com todas as tuas forças? não vês que o feitiço não desaparece só com palavras soltas e vontades desfeitas?
porque, se não fores capaz de o fazer, então esta princesa ficará à tua espera, sem forças para sair sozinha.

cada medo esconde um desejo [ disseste-me tu]

estás longe . juntamente com o quilómetros e a distância . os receios de sempre às vezes perco-os pelo caminho e hoje deixei um saco cheio deles naquela estação. aqueles bancos dizem tanto de nós e tão pouco de ti, na verdade, têm inscrito neles aquilo que nos conduziu aos destinos que não pudemos, naquela altura imaginar. não toco sequer no telemóvel, nem para ver as horas. prefiro esperar e perguntar à senhora do lado, ou deixar que o relógio atrasado do comboio me mostre o tempo que (ainda) não passou. prefiro continuar com as borboletas cá dentro, pensando que, quando olhar para ele vai dizer-me que pensaste em mim, do que deixar cair por terra aquilo que sei irreal . não por não seres capaz de o fazer (e fazes tantas vezes!), mas porque não podes sempre adivinhar a minha urgência de saber de ti. 
quero poder dar-te sempre tudo aquilo que precisas. o que a ti falta, em mim transforma-se em vazio também. mas sei que não posso sempre estar para ti, porque existe o tu dentro da bolha que foste criando ao longo dos mundos por ti passaram. posso continuar a tentar subir a montanha e sei, no fundo, que não vai ser preciso chegar ao topo, porque, eventualmente, vais descer e encontrar-me no planalto. é lá que as coisas são calmas e, na maioria das vezes, é lá que nos encontramos. 
um dia vou ser capaz de deixar de esperar que me adivinhes. porque vou ser capaz de me entender, de ouvir a voz que me fala em línguas que, muitas vezes, a maioria das vezes desconheço. 

não há planos para os sonhos mas, apesar disso, eles tornam-se realidade ..