R.

achas mesmo que é possivel ? pergunto.te eu no silêncio dos meus lábios cerrados sem ter a certeza de querer ouvir a resposta. e falas.me com aquela tua voz, aquele jeito estranho que dás às palavras. sorrio. parece que pegas nelas e que lhes dás assim um voltinha, para cima, para baixo, upa, e elas chegam com aquele som que só tu sabes fazer.
às vezes quando não tás perto (tu nunca estás perto. eu não deixo) tento pegar nas minhas e fazer.lhes o mesmo. pego nelas, assim com jeitinho, e tento dar.lhes voltinhas. mas nunca sai bem. ficam tontas e acabam por se perder no ar.
mas ..achas mesmo que é possível?
talvez seja. talvez tenhas razão.
se calhar posso esquecer o que quero. ou queria. e posso inventar novos desejos.
(toca de novo o telefone. é uma sms. tua.)
se calhar ..
se calhar é possível ! tu finges que é a mim que queres ..faz de conta que eu não sou apenas aquela que serve para preencher o vazio que em ti existe .e eu finjo que é a ti que desejo ..faz de conta que não és apenas aquele que uso para esquecer que recordar todos os dias cansa .
e na rectidão de minhas dúvidas pergunto-me pela imoralidade de tudo isto. mas depois.. depois, vem novamente a mim aquela tua canção de falar e penso ..tu usas.me .e nunca me disseste nada acerca disso apesar de eu o saber e tu não .
por isso .. poderei eu não dizer nada ? e saberás tu um dia ?

talvez ..
talvez seja melhor esquecer tudo isto e pensar que um café é apenas um café. aquecido e bebido numa chávena . mesmo que depois acabe sempre da mesma maneira.

L.

e se eu pudesse entender.te ?
seria tudo mais fácil .se te conhecesse podia ser como tu gostas ,fazer como tu queres ..talvez um dia eu chegue aquele momento  em que se acredita que somos completos e não obras inacabadas de um escultor preguiçoso em dia de mau-humor.
ahhhh, como eu gostava de ter aqueles olhar que queres beijar ( "I wish I had those eyes you want to kiss"), como eu desejava ter aquela voz que gostavas de ouvir (" I wish I had that voice you want to hear") ..
e esta sufocante vontade permanente de pensamentos de ti para que o meu corpo não esqueça aquilo que a cabeça deseja mas o coração não permite .o que fazer quando o mundo nos diz que é o tu que não merece e não o eu que perdeu o valor de si.
("This feeling is so hard that I can't breathe").


hoje .

dia em que me apeteceu dizer não .não me apetece .simplesmente isso ..
porque há dias em que afinal temos a coragem de assumir a nossa vontade de simplesmente desaparecer do mundo e existir para nós .(na solidão reconfortante de uma praça cheia de pessoas ).

U.

porque te procuro.
porque te perco .

qeria .

um dia vou ser capaz de calar o silêncio

F.

molhar os pés .

.mergulhar as mãos

achava qe sim .

eu achava que sim, mas pensava que não.
e no meio de tudo isto eram as incertezas que me levavam ao pleno direito de questionar "para que lado gira o mundo? ".
descobri que não interessa porque, qualquer que seja o sentido, a rotação esférica do momento só me levava os pensamentos deslavados de mim.. e ia encontrando aí a pureza das coisas que não existem, mas que podem possivelmente ser inventadas naquilo que é a permanente e constante invenção dos segundos de tempo .
" i want to do with you

 what spring does with cherry trees "

Pablo  Neruda

L.

é verdade .sim, é verdade.
confesso.
tenho saudades de ti.
pensei que fosse fácil simplesmente apagar da minha memória todas os risos .( e sorrisos ). pensei que bastava desejar com muita força e deixaria de cheirar a tua voz em mim. mas não (!) esta tarefa tem sido muito menos simples do que julguei .afinal não sou nada parecida com uma daquelas heroínas de banda desenhada que veste uma capa brilhante e ganha super poderes invejados por todos e possuídos por nenhum. afinal, não sou nem sequer alguém daqueles cheio de forças que é capaz de dobrar o mundo com um só pensamento. sou fraca. e, no entanto, é esta fraqueza que me abraça todas as noites e me traz o som daquele teu cheiro que é tão teu (e só teu). é esta fraqueza que me enlaça na escuridão e me leva de volta a ti. me faz sentir que os quilómetros e desejos de distância (afinal) nos aproximam .

tenho saudades de ti. de um nós que nunca existiu .
e não quero ser forte. quero manter este tremor de pernas quando se aproxima a possibilidade remota de te rever .quero manter esta taquicardia desregulada quando, finalmente, te sinto .quero perder todas as minhas forças quando o teu olhar (re)pousa novamente no meu .
e mesmo que tenha de virar as costas e fugir para que não oiças sístoles e diástoles desmarcadas e galopantes, a verdade é que todos os meus músculos tentam mover-se no sentido oposto e faço um esforço hercúleo para contrariar aquela que é, para meu corpo, a direcção natural dos passos .

e se ao menos pudesse eu dizer-te tudo isto.